Potássio de 3,8 na insuficiência cardíaca não é o alvo. A faixa de menor risco é outra — e mais estreita do que o laudo diz
Olá! O fio desta semana é o número que parece resolvido e não está. Um potássio "normal" que fica fora da faixa de menor risco na insuficiência cardíaca, uma via rápida de troponina que não encurta a permanência no pronto-socorro, e uma taxa de mortalidade por LDL que cai enquanto o número absoluto de mortes sobe. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
Potássio de 3,8 na insuficiência cardíaca não é o alvo. A faixa de menor risco é outra — e mais estreita do que o laudo diz
"Esse potássio está bom para manter a espironolactona?" nunca teve resposta firme. Uma metanálise de dados individuais de 12 ensaios randomizados — 32.346 pacientes com ICFEr e 13.723 com ICFEp, entre eles PARADIGM-HF, DAPA-HF, EMPHASIS-HF, TOPCAT e FINEARTS-HF — foi procurá-la.
Na ICFEr a curva é um J invertido. Abaixo de 3,5 mmol/L, a morte por qualquer causa sobe (HR ajustado 1,49; IC 95% 1,27–1,76), com excesso ainda maior de morte súbita (1,58; 1,18–2,12) e de morte por falência de bomba (1,71; 1,29–2,25). A faixa 3,5–4,0, que o laudo chama de normal, já se associa a mais hospitalização por IC (HR 1,13; 1,04–1,23), com tendência semelhante para morte (1,07; 0,98–1,16). Já a "hipercalemia leve", de 5,0 a 5,5, não se associou a pior desfecho após ajuste (HR 0,96; 0,89–1,04). Cruzando todos os desfechos, nos dois fenótipos, a faixa de menor risco ficou entre 4,2 e 5,0 mmol/L.
O freio é do desenho: são dados basais de ensaios — uma associação, não o efeito de elevar o potássio. Vários ensaios excluíram hipercalemia na entrada e a maioria excluiu doença renal grave, o que tende a subestimar o risco do extremo alto.
Ono R, Chimura M, Docherty KF et al., Eur Heart J 2026;47(32):4480–4499 · doi 10.1093/eurheartj/ehag341 · PMID 42206478. Referência das comparações: faixa 4,0–4,5 mmol/L.
Ensaio clínico
PRESC1SE-MI: a via 0/1 h da troponina é segura — mas não esvazia o pronto-socorro
A via 0/1 h com troponina de alta sensibilidade é a primeira escolha da diretriz europeia de síndromes coronarianas agudas. O PRESC1SE-MI testou o que acontece quando um hospital que ainda usa a via 0/3 h a implementa: 19 hospitais em 10 países, desenho stepped-wedge randomizado por cluster, 67.624 atendimentos por dor torácica entre dezembro de 2020 e dezembro de 2024.
Segurança (morte ou novo infarto tipo 1 em 30 dias): 1,2% contra 1,1%, odds ratio ajustada 0,93 (IC 95% 0,77–1,13) — não inferioridade cumprida contra margem de 1,3. Eficácia (tempo de permanência no PS): mediana de 309 minutos nas duas vias, razão 1,00 (IC 95% 0,97–1,02). O intervalo estreito diz que, se existe diferença de tempo, ela fica entre 9 minutos a menos e 6 a mais. A troponina chegou duas horas antes; o paciente saiu na mesma hora — porque as etapas fora do biomarcador dominam a soma.
Freios: randomização por hospital, não por paciente; o ensaio testa a implementação em quem ainda não usava a via; o financiamento inclui indústria ao lado de fundos públicos, com desfecho mascarado.
Boeddinghaus J, Bima P, Crisanti L et al., Lancet 2026 · doi 10.1016/S0140-6736(26)01654-5 · PMID 42667934 · NCT05649384.
Epidemiologia
Carga global do LDL-C elevado: a taxa cai, o número sobe
O Global Burden of Disease 2023 estimou, em 204 países e territórios, quanto da doença isquêmica do coração e do AVC isquêmico é atribuível ao LDL-C elevado. Em 2023: 3,6 milhões de mortes (6,0% de toda a mortalidade do planeta) e 90,7 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade.
As taxas padronizadas por idade caíram 45,6% (mortes) e 39,5% (DALYs) desde 1990 — mas a carga absoluta subiu 38,5%, puxada por crescimento e envelhecimento da população. Um terço está em dois países, Índia e China, e o problema se desloca para os países de desenvolvimento médio.
É modelagem de fração atribuível a partir de um nível teórico de referência (35–54 mg/dL): não há NNT nem efeito de tratamento aqui, e a incerteza é declarada pelos próprios autores — o intervalo de 95% para as mortes vai de 2,2 a 5,4 milhões.
GBD 2023 LDL Cholesterol Collaborators, JAMA 2026;336(8):673–698 · doi 10.1001/jama.2026.8628 · PMID 42525403.
Use isso hoje
No próximo paciente com ICFEr cujo potássio vier entre 3,5 e 4,2 mmol/L, não escreva "normal" na evolução. Antes de fechar a consulta, confira três coisas: a dose do diurético de alça, se o antagonista mineralocorticoide está prescrito e se o bloqueio do sistema renina-angiotensina está em dose-alvo.
É a faixa em que o laudo diz "normal" e a metanálise diz "abaixo do vale de menor risco" — e, na IC, potássio baixo costuma ser sinal de tratamento incompleto tanto quanto de risco elétrico. O estudo não testa condutas; ele muda a pergunta que você faz ao resultado.
Ono R et al., Eur Heart J 2026 (PMID 42206478), Tabela 2; orientação sobre eletrólitos na titulação conforme a diretriz ESC 2021 de IC (McDonagh TA et al., PMID 34447992).