Seis semanas de antibiótico na endocardite nunca tinham sido testadas num ensaio. Agora foram — e o resultado é uma troca
Olá! O fio desta semana é a decisão que depende de saber em que momento da doença o paciente está. Encurtar o antibiótico só depois da estabilização, ablacionar além das veias pulmonares só em quem tem substrato, escolher o antiarrítmico pela fase da miocardite, e separar dois Raynaud com o mesmo nome e prognósticos opostos. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
Seis semanas de antibiótico na endocardite nunca tinham sido testadas num ensaio. Agora foram — e o resultado é uma troca
A recomendação de até 6 semanas de antibiótico na endocardite de câmaras esquerdas se apoiava, em larga medida, em opinião de especialista. O POET-II randomizou 508 adultos já estabilizados após 2 a 4 semanas de tratamento — endocardite por S. aureus, E. faecalis ou estreptococos — entre duração guiada pela resposta clínica e duração padrão de 4 a 6 semanas.
Em seis meses, o grupo guiado pela resposta ficou 183 dias vivo e sem antibiótico contra 169 (diferença de 13 dias; P < 0,001). O desfecho de segurança — morte, cirurgia cardíaca não planejada ou embolia sintomática — foi 8,2% contra 10,7%, dentro da margem de não inferioridade de 7,5 pontos.
O preço está no desfecho secundário-chave: recidiva de bacteremia ou endocardite em 5,1% contra 1,6% (13 contra 4 pacientes; P = 0,04). Ganha-se tempo sem antibiótico; paga-se com recidiva mais que triplicada. É decisão de troca, não de superioridade — e só para o paciente já estabilizado, não para a fase aguda.
Bundgaard H, Pries-Heje M, Hjulmand J et al., N Engl J Med 2026 · doi 10.1056/NEJMoa2607887 · PMID 42663314 · NCT03851575. Ensaio aberto, internacional; a margem de não inferioridade de 7,5 pontos percentuais é larga para um desfecho que inclui morte.
Ensaio clínico
IDEAL-AF: isolar as veias pulmonares deixou de ser o fim do procedimento
Na FA persistente, o isolamento de veias pulmonares continua sendo a base, mas o resultado é insatisfatório. O IDEAL-AF, em cinco centros suecos, rastreou 936 pacientes com mapeamento de voltagem na primeira ablação e randomizou os 209 que tinham zona de baixa voltagem de pelo menos 3,0 cm²: PVI mais ablação individualizada dessas zonas (n = 102) ou PVI isolada (n = 107).
Em 12 meses, 67,6% contra 37,4% estavam livres de arritmia sem antiarrítmico — diferença de 30,3 pontos percentuais (IC 95% 17,4 a 43,2; OR 3,5; P < 0,001), com qualidade de vida melhor e eventos adversos graves semelhantes.
Dois freios: o desfecho é de ritmo, não de AVC ou morte; e a estratégia se aplica a uma minoria — só 209 dos 936 rastreados —, identificada apenas com mapeamento de voltagem feito no procedimento.
Paul Nordin A, Charitakis E, Carnlöf C et al., JAMA 2026 · doi 10.1001/jama.2026.17274 · PMID 42669133 · NCT04377594.
Consenso
Arritmias na miocardite: a conduta muda com a fase
A miocardite é causa importante e frequentemente não reconhecida de bloqueio atrioventricular e de arritmia ventricular. O consenso conjunto da EHRA, da Heart Failure Association, do grupo de doenças do miocárdio e do pericárdio da ESC e das sociedades de ritmo da América, da Ásia-Pacífico e da América Latina organiza a decisão por fase.
Na fase quente, com inflamação ativa, o antiarrítmico é somado ao tratamento da causa ou à imunossupressão, quando indicada. Na fase fria, com substrato estabelecido, entram as estratégias baseadas no substrato — fármaco, dispositivo, ablação. A transição de quente para fria é apontada como janela arritmogênica, e o background genético entra na decisão junto com a fase.
É consenso clínico: não há desfecho primário nem estimativa de efeito, e cada afirmação vem graduada conforme a base seja opinião, estudo observacional ou ensaio randomizado — nem toda recomendação do texto pesa igual.
Peretto G, Basso C, Berruezo A et al., Eur J Heart Fail 2026 · doi 10.1093/ejhf/xuag271 · PMID 42663246.
Ambulatório
Raynaud primário e secundário: mesmo nome, prognósticos opostos
Quase todo mundo reconhece o fenômeno de Raynaud; quase ninguém o classifica. O statement da AHA organiza a separação que muda a consulta: o primário costuma acometer mulheres na segunda década de vida e segue curso benigno; o secundário costuma surgir mais tarde, associado a doença sistêmica, e em casos graves pode evoluir para isquemia digital ou perda de tecido.
No secundário, tratar a doença de base é essencial para melhorar os sintomas vasculares e prevenir complicações — o alvo não é só o vaso. O documento revisa mudanças de estilo de vida, terapias farmacológicas e, para casos graves, toxina botulínica e intervenção cirúrgica. A imagem avançada aparece como sinalização de tendência para detecção precoce da forma secundária, não como conduta estabelecida.
Ujueta F, Goudot G, Cutolo M et al., Circulation 2026 · doi 10.1161/CIR.0000000000001464 · PMID 42639644. Os autores registram a escassez de ensaios clínicos avaliando tratamento para o fenômeno de Raynaud.
Use isso hoje
No próximo paciente com miocardite e arritmia, antes de escolher o antiarrítmico, escreva na evolução em que fase da doença ele está — quente, em transição ou fria — e o que sustenta essa classificação.
O consenso organiza toda a conduta a partir dessa pergunta, e a transição de quente para fria é a janela em que ele pede mais atenção. Uma evolução que não nomeia a fase não deixa ninguém da equipe seguinte saber por que aquele antiarrítmico foi escolhido.
Consenso clínico EHRA/HFA/ESC e cols., Eur J Heart Fail 2026 (PMID 42663246).