O modelo de linguagem venceu o código CID na busca de eventos no prontuário. Venceu mesmo? Depende do desfecho e da coorte.
Olá! O fio desta semana é a ferramenta nova que só vale pelo desfecho que ela mede: o modelo de linguagem que busca eventos no prontuário, o T1 nativo que acrescenta pouco ao prognóstico do diabético e a terapia de insuficiência cardíaca que funciona no idoso, desde que chegue até ele. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
O modelo de linguagem venceu o código CID na busca de eventos no prontuário. Venceu mesmo? Depende do desfecho e da coorte.
Para pesquisa retrospectiva, o modelo de linguagem já acha infarto e AVC no prontuário melhor que o código CID? Um estudo do Mayo Clinic comparou quatro métodos automáticos (código CID, diagnóstico primário, lista de problemas e um fluxo com modelo de linguagem em zero-shot, isto é, sem treino específico para a tarefa) com a revisão manual do prontuário como padrão de referência, em 3.684 pacientes: 2.258 em imunoterapia oncológica (coorte 1) e 1.426 após TAVI (coorte 2).
Na coorte 1, o modelo teve a maior AUC para AVC (0,920), infarto (0,938) e MACE (0,880); para insuficiência cardíaca, o CID foi melhor (0,882 vs 0,873), e nenhuma diferença foi estatisticamente significativa. Na coorte 2, o modelo teve a maior AUC nos quatro desfechos, com diferença significativa em relação ao CID para AVC e MACE.
O freio é do desenho: estudo retrospectivo em um único sistema de saúde, com modelo em zero-shot. Os autores concluem por um papel complementar, não substituto.
Ibrahim O, Farina J, Pereyra Pietri M et al., BMJ Open 2026;16(8):e116133 · doi 10.1136/bmjopen-2025-116133 · PMID 42595369.
Imagem cardiovascular
T1 nativo no diabetes: ganho prognóstico real, porém modesto
Em uma coorte prospectiva de ressonância de centro único, com 3.614 pacientes (635 com diabetes, 18%), o T1 nativo se associou a pior desfecho no diabetes, e os pacientes com diabetes e T1 acima de 1.123 ms tiveram o pior prognóstico. No modelo multivariado (2.426 pacientes, 82 eventos de morte por todas as causas, internação por IC ou choque apropriado do CDI), acrescentar o T1 nativo melhorou o ajuste global (p=0,0048), a discriminação (índice C de 0,758 para 0,771) e a reclassificação (NRI 0,113; p=0,013). Os próprios autores chamam o ganho de modesto.
Freios: registro de um único centro, observacional, com poucos eventos para um modelo multivariado.
Treiber JM, Backhaus SJ, Wolter JS et al., Int J Cardiol 2026;463:134730 · doi 10.1016/j.ijcard.2026.134730 · PMID 42600700.
Insuficiência cardíaca
IC no idoso: a terapia funciona; o difícil é entregá-la
O Scientific Statement da AHA trata de pacientes com 65 anos ou mais e insuficiência cardíaca, grupo de maior risco de morte cardiovascular ou piora da IC e, ao mesmo tempo, com mais barreiras para receber terapia modificadora de doença. O documento reúne a literatura sobre o efeito e a segurança consistentes das terapias de IC no idoso e organiza o manejo de multimorbidade, polifarmácia, fragilidade e necessidades sociais em um arcabouço de decisão compartilhada, com orientação para quem tem comorbidades avançadas e foi pouco representado nos ensaios.
Freio: é um documento de consenso; não testa intervenção e não traz estimativa de efeito.
Lewsey SC, Martyn T, Blumer V et al., AHA Scientific Statement, Circulation 2026;154(5):e206–e230 · doi 10.1161/CIR.0000000000001437 · PMID 42312386.
Use isso hoje
Na próxima consulta de IC com paciente de 65 anos ou mais, antes de concluir que ele "não tolera" a terapia, registre quatro itens: multimorbidade, polifarmácia, fragilidade e necessidades sociais (acesso à medicação, transporte, suporte). Depois pergunte o que ele mais valoriza. Segundo o statement, o efeito e a segurança das terapias de IC são consistentes no idoso; o que muda é como entregá-las.
Lewsey SC et al., AHA Scientific Statement, Circulation 2026 (PMID 42312386). A sequência de quatro itens é síntese editorial do CardiologyInsights.