Dois cardiologistas discordam da conduta. Os dois estão seguindo diretriz.
Olá! O fio da semana é onde o consenso termina e a decisão volta a ser sua. Sete diretrizes que concordam no tratamento e divergem exatamente no ponto em que você precisa escolher, um laudo de eco que ninguém tinha definido como avaliar, uma anemia que chega antes da cirurgia e uma prescrição que a gente repete por hábito. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
Dois cardiologistas discordam da conduta. Os dois estão seguindo diretriz.
Uma revisão sistemática colocou lado a lado as diretrizes de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. Doze documentos foram identificados; sete passaram no critério AGREE II de rigor de elaboração e entraram na análise final.
Nos quatro pilares do tratamento há consenso, e ele é firme: inibição do SRAA, betabloqueador, antagonista mineralocorticoide e inibidor de SGLT2. Também há acordo sobre prevenção, sobre a definição de ICFEr e sobre a abordagem diagnóstica inicial.
A divergência está exatamente onde a decisão é sua: limiar de peptídeo natriurético para o diagnóstico, sequência de introdução do bloqueio do SRAA e indicação de dispositivo — cardiodesfibrilador na ICFEr não isquêmica, ressincronização — além da indicação de revascularização. O estadiamento também varia, sobretudo na identificação e no manejo dos estágios A (em risco) e B (pré-insuficiência cardíaca).
E há um vazio: só uma minoria das diretrizes trata das comorbidades que aparecem todo dia no ambulatório — deficiência de ferro, fibrilação atrial, obesidade, distúrbio respiratório do sono e fragilidade.
Quando duas condutas divergem, vale conferir se o desacordo está no colega ou no documento.
Datta S et al., Eur Heart J Qual Care Clin Outcomes 2026;12(5):679–703 (PMID 41778370). É uma comparação de documentos, não de desfechos — nenhum paciente foi randomizado aqui. O AGREE II mede o rigor com que a diretriz foi elaborada, não o acerto clínico da recomendação.
Imagem cardiovascular · inteligência artificial
A IA parou de medir e começou a escrever o laudo. Quem corrige?
O comitê de inteligência artificial da Sociedade Coreana de Ecocardiografia propôs uma régua única para pontuar laudo de ecocardiograma — venha ele de humano ou de máquina. São três passos: uma barreira de segurança que reprova o laudo quando há omissão de achado que ameaça a vida ou invenção de achado crítico; um escore de precisão diagnóstica item a item, em 25 itens distribuídos por quatro domínios anatômicos (0–80); e um escore de qualidade clínica em três pontos — pertinência, síntese e clareza (0–20). A soma dá a nota composta de 0 a 100; reprovar na barreira de segurança zera tudo.
No piloto, 30 exames transtorácicos de adultos foram interpretados por 11 leitores de três níveis de treinamento. As três notas subiram de forma consistente com o nível: a sensibilidade para detectar achado crítico foi de 59,3% a 92,6% (P = 0,007) e a nota composta, de 72,2 a 86,2 (P = 0,003).
O ponto que interessa ao serviço: antes de perguntar se a máquina acerta, é preciso definir por escrito o que é acertar num laudo.
Bae S et al., J Cardiovasc Imaging 2026;34(1) (PMID 42601624). O piloto validou a régua em leitores humanos; laudo gerado por IA ainda não foi testado com ela.
Perioperatório · avaliação pré-operatória
Metade dos pacientes chega para a cirurgia cardíaca já anêmica
A declaração científica da American Heart Association sobre anemia perioperatória e manejo do sangue em cirurgia cardíaca põe o problema no lugar certo: anemia e transfusão de hemácias são fatores de risco de morbidade e mortalidade, e a anemia pré-operatória atinge até metade dos pacientes que chegam para operar. A causa mais comum e mais modificável é a deficiência de ferro, principal motor de transfusão nesse cenário — e ela deve ser procurada na avaliação pré-operatória, não na véspera.
A magnitude do risco vem da coorte de referência de sete hospitais universitários, 3.500 pacientes: prevalência de anemia pré-operatória de 26% pelo critério de hemoglobina abaixo de 12,5 g/dL, desfecho composto de morte hospitalar, AVC ou lesão renal aguda em 7,5%, odds ratio bruto de 3,6 (IC 95% 2,7–4,7) e 2,0 (IC 95% 1,4–2,8) após ajuste multivariável.
Do outro lado da conta, a bolsa também cobra — daí a lógica dos limiares restritivos e das estratégias de conservação sanguínea que a declaração organiza.
Statement AHA, Circulation 2026;154(6):e243–e257 (PMID 42324995) · coorte: Karkouti K et al., Circulation 2008;117:478–484 (PMID 18172032). A coorte é retrospectiva e mede associação, não causalidade; os próprios autores terminam pedindo estudos que testem se tratar a anemia muda o desfecho.
Amiloidose · ressonância
O que a ressonância viu no HELIOS-B
Análise post hoc das ressonâncias de um único centro dentro do HELIOS-B, o ensaio de vutrisirana na cardiomiopatia amiloide por transtirretina. Foram 43 pacientes com exame no início (21 com vutrisirana, 22 com placebo), 17 deles ainda com exame aos três anos.
As diferenças a favor do tratamento apareceram na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (diferença de médias por mínimos quadrados 19,18%; IC 95% 11,76–26,60; P < 0,001), na massa do ventrículo esquerdo (−23,58 g; IC 95% −38,78 a −8,39; P = 0,002) e no volume extracelular (−6,56%; IC 95% −10,10 a −3,01; P < 0,001) — este último é a medida que estima a carga de amiloide no miocárdio.
Aos 36 meses, houve regressão de amiloide em 2 de 9 pacientes com vutrisirana e em nenhum dos 8 com placebo; progressão em 5 de 8 no placebo contra 1 de 9 no tratamento.
Razvi Y et al., JAMA Cardiol, 12/08/2026 (PMID 42584913). Análise post hoc, retrospectiva, de um subgrupo de um único centro; o desfecho é de imagem, não evento clínico; o número de pacientes com exame de três anos é pequeno; e a lista de autores inclui pesquisadores do fabricante.
Use isso hoje
No próximo paciente com insuficiência cardíaca estável, revise a restrição hídrica que está na prescrição por hábito.
A revisão sistemática mais recente reuniu quatro ensaios randomizados e 682 pacientes: nenhum encontrou diferença em mortalidade ou hospitalização por insuficiência cardíaca, nem em classe funcional ou (NT-pro)BNP — e a restrição produziu mais sofrimento por sede. A conclusão dos autores é direta: a evidência atual não sustenta o uso de rotina da restrição hídrica na insuficiência cardíaca.
Herrmann JJ et al., Heart 2026;112(17):939–945 (PMID 41529956). Os quatro ensaios são heterogêneos demais para serem somados numa estimativa única — os autores não fizeram metanálise por isso — e só um deles tem baixo risco de viés. Isso não é prova de que restringir não faz mal nem bem: é ausência de benefício demonstrado, com sinal de desconforto.